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em tempo de palavras mudas... silêncios gritantes!
My thoughts for nothing

Um veneno a corroer-me as paredes da alma bateu-me hoje à porta para sair. Delicadamente no entreabrir das janelas foi enchendo as profundidades de mim. Disseste-me baixinho que era luz, e eu fechei os olhos com medo das feridas abertas que marcam ainda a íris da tristeza no meu olhar. E o veneno não és tu. Sou eu que me condeno à penitência de querer os nadas que nos constroem muros e rodeiam a liberdade de existir aqui, e ali e aí.
Talvez que não tenha a ver com as questões, talvez sejam os olhos. Não é a pergunta errada, simplesmente não se olha a resposta da mesma maneira.
É dificil... muito difícil... tanto que quero deixar hoje de lado as metáfotas.
Estou numa cidade alheia a mim própria há sete meses. (Já são sete meses!) Continuo a percorrer, como o fiz hoje, as pedras da calçada antiga e os caminhos ainda são estranhos. Ainda não antecipo a cor das portas, o indiscreto por detrás dos postigos, a luz que bate nos vidros das minhas janelas de manhã.
Cheguei era setembro, era para ser no início, mas quis o destino sussurrar-me que seria mais tarde. Acho que me quis dar a entender que a estranheza que eu sentia não era por acaso. Mas eu não dei, como não dou nunca, ouvidos a entidades que fogem à compreensão da minha infinita racionalidade. Foi o fazer das malas, as inúmeras malas que se multiplicavam em sacos de papel e plástico, caixas e caixotes... Trouxe quase tudo comigo, para me fazer sentir
Nos meses que antecederam a minha vinda, antecipava e engrandecia o sonho da minha vida... ia finalmente ser "aquilo que queria ser quando fosse grande". Quando era miúda sempre imaginei um apartamento numa cidade barulhenta, onde tivesse uma bicicleta no hall de entrada (não faço ideia para quê...), onde houvessem vasos de flores por todo o lado e em que fosse eu mesma a autora da cor das paredes. Estas tinham que ser variadas, é claro, ou não fosse eu ignorante em matéria de contratos de arrendamento e cláusulas de conservação. Sonhava acordada e fazia plantas e mais plantas, que retirava das revistas de decoração da minha mãe que ela ia acumulando na mesinha transparente da sala ou nas caixas da arrecadação. Queria ter gatos, claro está… (hoje bastava-me que fosse a Nini). A música seria constante como o perfume das flores pelo ar. E por fim, decorava esta minha fantasia com imensos amigos a irem jantar lá a casa, grandes serões de chá quente, vinhos e cigarros apagados nos cinzeiros improvisados.
Em Agosto foi a escolha derradeira: Tenho de ir. E vim. Escolhi casa num dia de sol e calor de torrar o volante de borracha do carro. Trouxe-te a ti, porque queria sentir que ias fazer parte da mobília desde o começo. O meu orçamento planeado (e incerto) parecia arrebatador, habituada que estava a viver semanalmente. Não procurei pela vista da janela, mas pelo aconchego com janelas fechadas. Queria espaço, mas não queria sentir que ali vivia mais ninguém. E depois, enquanto eu olhava conformada para o T0 (que não destruía por completo as minhas fantasias de jantaradas) tu disseste da porta ao lado: “Quando vires este já não vais querer outro”. Tinhas razão. Olhando agora para trás, reparo que achei a sala mais pequena, adorei logo a ideia de ter um “caixote na sala em vez de cozinha” (como ficará para sempre recordada pela expressão da Zita), e encontrei imensas inutilidades que ficariam fantásticas no +1. Este era o T1+1 no Edifício Salto 3, Bloco 5, 6º andar em Amarante.
Voltamos para o Porto com o meu entusiasmo mal contido dentro do carro no meio do calor abafado que fazia. Era a primeira pedrinha no meu futuro iminente. Claro que só pensava em móveis e tapetes e candeeiros e capas de edredon. Comprei logo umas duas ou três revistas de decoração de interiores e fui desenterrar mais umas quantas das prateleiras da arrecadação. Queria planear cada recanto, queria que tudo fosse como eu tinha imaginado. Também não me imaginava a viver um dia sequer sem me sentir completamente em casa (não sabendo sequer o que isso seria), só sabia que queria móveis em todas as divisões com as minhas cores salteadas. Para que tal profecia se cumprisse, fizemos a tão planeada ida ao Ikea e viemos de lá carregados de inutilidades coloridas.
O primeiro carregamento foi sofrido, pois aquilo que enchia por completo a bagageira e os bancos traseiros da carrinha não dava sequer para cobrir a largura de uma das paredes da sala. Achei que ia ter uma casa vazia, que seria o meu pior pesadelo. Mas lá pela segunda ou terceira ronda de carro cheio, comecei a sentir que já estava mais composto o meu albergue de adultez. As limpezas e arrumações começaram dar cor e forma, e a tua presença concluiu o meu processo de transladação de alma.
Foi depois um longo Setembro de ansiedade e desejos adiados de um começo incerto. Mas comecei.
A euforia foi imediata, inevitável no corrupio de entrada e saída de miúdos da minha sala de consultas. Também este espaço se foi acomodando à minha presença e se foi enchendo de desenhos e histórias nas paredes falsas de uma varanda ladeada de janelas.
Para mim não estava ainda definido o meu papel naquela confusão, ainda havia muito que aprender acerca de horários, subsídios, segurança social, encaminhamentos, relatórios… Foi no meio deste desatino que precisei de aprender a escrever em meias palavras, dizer muito com pouca conversa, encurtar as frases e reduzir os parágrafos. E daí achar que agora escrevo apenas telegramas. Mas dessa história outras linhas surgirão, porque são demasiado inócuas para precisarem de ser assinadas agora.
É da solidão que preciso de escrever agora.
Mas ainda assim… chego à conclusão inevitável de que sobre essa nada há para dizer. As noites foram sempre iguais a esta. Uma e mais outra se foram somando nas páginas de uma agenda apenas preenchida com nomes e marcações. Geralmente são passadas em frente ao ecrã do computador, ansiando uma qualquer possibilidade de sair daqui, de continuar na perseguição de decorar a minha futura casa com amigos e jantaradas.
Parece que chego ao fim de um caminho que apesar de tudo nem foi longo ou duro, mas que pelo prazer da(s) companhia(s) deixa de fazer sentido ao terminar num destino deserto. E é então assim que volto ao meu ponto de partida, o de não me lembrar sequer qual será a minha dúvida… é a pergunta que está errada ou são os meus olhos que já não sabem o que ver? Por isso tento ver como olho, e por isso escrevo.
(continuo à procura…)
Hoje saí do meu *aquário* ainda com o sol a incomodar os olhos, forçando as pálpebras num movimento contínuo de recusa... Pensei em ir polir as solas dos sapatos e percorrer as ruas de calçada, pensei em ir pensar na vida. Mas depois não fui. A metáfora da minha própria vida adequou-se melhor à esfregona e ao avental das limpezas da primavera.
no outro dia tentei dizer-te que me procurei do avesso... Bem, *suspiro* encontrei-me!