sábado, 31 de julho de 2004

fui lá

sim, fui e vi gente
não muita mas a suficiente para me sentir só
todos aqueles olhares me souberam aquele ar quente que escorre das paredes

por entre a multidão era possível distinguir a indiferença
à medida que se ia atravessando a calçada, arrastavam-se para o lado
e levavam consigo os sorrisos inúteis sem qualquer espécie de conforto
Não procuravam encontrar-me e eu também não lhes dei nada.
Por entre as luzes sem barulho procurava desenhar um qualquer rosto
pensei mesmo em pintá-lo ali, mas não havia o ambiente.
Depois percebi que estava perdida na minha própria casa.
Já não fazia a menor ideia de onde ficavam as portas,
mas o que mais queria era sair.
Também tentei encontrar uma janela,
mas graves reposteiros pareciam cobrir o meu futuro.
Acabei por concluir que já não haveria fim,
para algo que nunca teve começo.
Não consigo apontar com clareza,
já nem imagino o que pensaria se o soubesse.
Mas assim acabei por vir para casa.
E de qualquer modo fui.
Cumpri o que seria suposto,
mas não terminei nada.
Sentei-me nas cadeiras certas,
bebi as garrafas sem alcool, as supostas e previstas,
que não me alegraram,
mas também não me fizeram ter mais consciência,
o que por vezes sucede.

No fundo, há que realçar que fui.
E só por isso deveria sorrir os sorrisos deles
abraçar os abraços deles,
conversar e dançar nas palavras deles.
Mas não o fiz. Apesar de ter ido.

sexta-feira, 30 de julho de 2004

Quando a noite resignada
abria a última pálpebra
gritei ainda: "Mas é isto o espelho!"

Alexandre O'Neill

as pessoas têm sempre a inconveniente mania de nos darem mais informação que aquela que pedimos, ou sequer queriamos saber

screaming your clouds away

once your blood has been completely drunk
when you feel there's nothing left to feel
the cold sensation of having nothing more to say

the terrible silence
echoes inside your emptiness

the gentle sound of goodbye
the warmth just begs to leave you

there's nothing to look at
but you still search the blank in the wall

what you hear
is just the sound of screaming your clouds away

ouvir com extrema atenção na companhia de um copo sedento de ficar vazio

Rodrigo Leão - Cinema , Lonely Carousel

História E Real... by Claus Min

Há algum tempo. Não sei quando
Conheci um anjo num café de baixo brilho
Fumava um cigarro eterno e bebia
de um copo sujo
Como se sorvesse a alma em cada gota
Dilacerada pelo fumo e enterrada num sorriso
Que nunca se via, mas que sabia que lá estava
Na mesa, em frente, o mesmo livro
Amarelo de tão gasto, mas eternamente fechado
Abandonado a um canto como uma folha
de Inverno
nesse mundo, algures, eu estava parado
Pasmado na apatia sem loucura
No eterno veneno sem morte
Mas... ele erguia os olhos para o tecto sujo
E voltava a pousá-los sobre a mesa
Pois ele era um anjo
Planava sobre as coisas
Nunca as tocava
Nem talvez nunca as visse

Um dia sentou-se na minha mesa
Com um propósito qualquer
Apertou-me a mão e disse: “Eis o meu cartão!”- entregando-me um papel amassado, onde se podia ler:
ANJO E TODOS OS CAMINHOS PARA O CÉU
Acenei afirmativamente sem interesse
“Desculpe, amigo, mas não estou interessado em drogas” - disse-lhe à espera
que ele voasse
Mas não, deixou-se parado no silêncio
Até que todos os dias se foram
Assassinados por todas as noites

Um dia num café de baixo brilho
Conheci um anjo que fumava eternamente
Sorvendo todas as células do dia
Num copo sujo
Eu costumava vê-lo assim parado
Pois eu também lá estava assim
Vago e estúpido
Depois de ter chumbado todos os exames
E sido rejeitado em todos os círculos literários
Por ter mais de um metro e oitenta
E nunca fazer a barba
E... numa qualquer tarde
Sentou-se na minha mesa e disse: Eu e Deus, sabes, somos tu cá tu lá. Tens de vir beber um copo connosco!”
Sim, disse eu sem interesse
Um dia destes...
E a frase pairou durante anos e anos
Um dia destes...

Um dia encontrei-o numa cabina telefónica
Reconheceu-me e pediu-me uma moeda
Não tinha nenhuma e não lhe pude acudir
Porquê?- perguntou
Parquímetros- respondi. E ele parou no silêncio
Como se quisesse dormir de olhos abertos
Fiquei parado a olhá-lo
Fiquei parado a vê-lo assaltar uma mulher de uns quarenta, que fugiu aflita
E a vê-lo partir uma montra e a sair com a caixa registadora
Correu alegre para mim com as mãos cheias
de moedas e disse: “Consegui!”
Marcou um número e perguntou: “Está? Deus?”
Mas nenhuma voz se ouviu
Olhou-me atónito
Chegou um carro de polícia
Saíram dois polícias e levaram o anjo
Que não parava de abanar as asas aos gritos
E que queria falar com um advogado

Fiquei parado a olhá-lo
Partiu e nunca mais o vi
Não lhe disse que tinha telemóvel
Fiquei parado a olhá-lo
Mas depressa esqueci o assunto

Num café de baixo brilho
Costumava pairar um anjo fumante
O café é agora uma loja de sementes
E eu sou o empregado de balcão
Mas no tecto ainda paira o seu fumo
Brilhante, amarelo tal uma folha
de Inverno
Queimada por um sorriso que nunca se via
Mas que lá estava
Pode ter sido preso
E Deus ser mudo ou mal educado
Mas será sempre um anjo


Claus Min- RMM


quarta-feira, 28 de julho de 2004

Avião sem asas
Fogueira sem brasas
Sou eu assim sem você
 
Adriana Calcanhoto

nascuntur poetae, fiunt oratores

terça-feira, 27 de julho de 2004

parecem pombas que perderam toda e qualquer vergonha...
aproximam-se das pessoas como se nem sequer constituissem qualquer ameaça, reduzindo-nos à quase insignificância de ali estarmos, oblívios.
só querem ganhar a vida, mas destroem-me a tranquilidade do pensamento pousado sobre o olhar fixo lá ao longe no mar.

se sentes dor pela perda, é pq já sentiste o prazer q te deu a presença...

e só por isso, nunca te deverias arrepender.

the first

Se um dia foste sol vigoroso
se um dia choveste na minha janela
se um dia fizeste sorrir aquela parede
se um dia fechaste a porta e nao voltaste

se nunca voltares nem nunca mais
se nunca as tuas palavras fizerem sentido
se nunca me encontrares naquele canto escuro
se nunca escorreres mel das tuas artérias

para isso só basta sofrer
para isso só basta tentar
para isso só basta um dia
e por isso será nunca

Inês