sábado, 27 de novembro de 2004

na sala

Estavam os dois a olharem para o vazio que emoldurava a vista da janela da sala dela. Toda a casa espelhava uma pequena partícula do seu ser, desde as maçanetas das portas até às dezenas de quadros minúsculos que cobriam a parede da entrada.
Ela rodava as pedras de gelo dentro do copo, enquanto ele girava a colher dentro da chávena de chá.
- Sabes, nunca tive uma casa como a tua, que é a tua. – pensou ele enquanto dizia – A tua casa é muito agradável.
Ela esboçou um sorriso mas não o concretizou. Imediatamente se voltou para dentro da sala abandonando o vazio e sentou-se no chão. Começou a tirar as botas e pousou o copo.
Em seguida, quase sem se fazer notar, ligou um qualquer cd e o silêncio que mantinham deixou de se ouvir.

terça-feira, 9 de novembro de 2004

na porta do prédio

Pararam em frente a uma porta, que ela disse ser a dela. O prédio parecia ser recente e havia um ar aconchegante a envolver a fachada. Talvez fossem as plantas nas varandas ou os cortinados por detrás dos vidros das janelas. Ele sentiu-se incomodado com todo aquele ar de vida já construída, já inserida naquele quotidiano que se repetia em cada andar do prédio. Ela sentou-se nos degraus que antecediam a fechadura da porta de vidro e aço. Ele seguiu-lhe o gesto e imitou-o desiludido. Estava a ruminar sobre a ideia de denunciar o frio como pretexto para entrar dentro da vida dela (apartamento, entenda-se), e via agora um degrau como único convite.
Talvez seja um bom começo, pensou ele.
Talvez tenha sido uma má ideia, pensou ela.