domingo, 31 de outubro de 2004

na rua

O frio já doía nas mãos quando viraram a esquina. O candeeiro iluminava de amarelo as pedras da calçada branca que iam pisando. Os saltos dela continuavam a marcar o compasso, mas o coração dele teimava em não acompanhar o ritmo. Ela enfiou as mãos até aos limite mais profundo dos bolsos do sobretudo, esticando os ombros para se manter direita. No entanto, o frio fê-la voltar a encolher as costas como se fosse um gato com vontade de se enroscar. Não diziam nada, andavam simplesmente, como o planeado. O frio era a presença mais marcante, de tal modo que parecia ser uma daquelas noites que ao serem recordadas começariam sempre o seu relato com “Estava um frio…”.

sábado, 30 de outubro de 2004

no café 4

Devem ter passado apenas umas duas horas. A mesa reflectia apenas uma pequena parte da desconstrução da vedação com que tinham chegado aquela situação. Um maço de cigarros desfeito em pedacinhos, ao lado de rolinhos de papel de jornal. Garrafas e copos vazios. Um cinzeiro cheio. As chávenas de café, que haviam inaugurado a noite. E as mãos, já gastas de nervosismo, simplesmente assentes no colo. Em volta, as pessoas que já ali estavam, ali continuavam. Entre breves sorrisos preenchidos de palavras ocas, foram-se repetindo os silêncios. Aqueles compassos de tempo mudos de assunto, que os deixavam cada vez mais inquietos. Foi dela a iniciativa.
- Vamos sair daqui?
- Para onde? - disse ele, enquanto acabava de acender mais um cigarro.
- Vamos simplesmente embora, há aqui gente demais.
No fundo, o que a estava a incomodar não eram as pessoas, nem tão pouco a baruheira insuportável que ia crescendo enquanto os copos se repetiam e inundavam as mesas. Não gostava de sentir que era necessário gritar para se fazer ouvir, imaginando que a pessoa da cadeira ao lado a ouvia melhor que a sua companhia... Era já demasiado terrível ter de ouvir as conversas insípidas das dezenas pessoas que se concentravam naquele espaço, demasiado pequeno para se sentir confortável.
- A sério, não aguento mais isto, vamos simplesmente andar na rua.
E foram.

quarta-feira, 27 de outubro de 2004

castelo amurado

E enquanto olhavas para mim, vias por cima do meu ombro aquilo que não sou. Olhavas para um vazio para ti perfeito, para mim tragédia. Senti que o vento que soprava dos teus lábios sabia cada vez menos a palavras, deixaste sequer de o dizer. Se a ausência era frio que gelava o teu lugar vazio do meu lado, agora escorrrem pedaços de calor para que não sintas este como o teu lugar. Sei que fui eu que os desenhou, os pintou, os sorriu, os castelos. Mas quando o momento chegar, também serei eu que pedra por pedra construirei o muro que separa a minha dor do teu não sentir.

domingo, 3 de outubro de 2004

no café 3

- Quantas letras? - disse ela já sentada regiamente na cadeira.
- Desculpa...?
- Estás há tanto tempo a olhar para essa mesma página que pensei que estivesses atrapalhado com alguma palavra...
Mas ele não estava. Aliás, toda e qualquer dúvida que pairasse ainda sobre os seus pensamentos acerca de querer ou não estar ali, tinha-se dissipado há muito. Esqueceram harmoniosamente as boas-noites. Passaram rapidamente para o silêncio incómodo de quem não preparou o discurso de quebrar o gelo. Ela teimava em não pousar os olhos um só segundo.
- O empregado... não o vejo... - tentando explicar a ondulação dos seus olhos.
Experimentou pousar as mãos na mesa. Mas não havia nada com que entreter os dedos. Começou rasgar pedacinhos de jornal enquanto os fazia rolar ao longo dos dedos. O nervosismo era já óbvio, quando finalmente chegou o empregado para pôr termo à ausência de palavras.
- Café?
- Café.