no café 4
Devem ter passado apenas umas duas horas. A mesa reflectia apenas uma pequena parte da desconstrução da vedação com que tinham chegado aquela situação. Um maço de cigarros desfeito em pedacinhos, ao lado de rolinhos de papel de jornal. Garrafas e copos vazios. Um cinzeiro cheio. As chávenas de café, que haviam inaugurado a noite. E as mãos, já gastas de nervosismo, simplesmente assentes no colo. Em volta, as pessoas que já ali estavam, ali continuavam. Entre breves sorrisos preenchidos de palavras ocas, foram-se repetindo os silêncios. Aqueles compassos de tempo mudos de assunto, que os deixavam cada vez mais inquietos. Foi dela a iniciativa.
- Vamos sair daqui?
- Para onde? - disse ele, enquanto acabava de acender mais um cigarro.
- Vamos simplesmente embora, há aqui gente demais.
No fundo, o que a estava a incomodar não eram as pessoas, nem tão pouco a baruheira insuportável que ia crescendo enquanto os copos se repetiam e inundavam as mesas. Não gostava de sentir que era necessário gritar para se fazer ouvir, imaginando que a pessoa da cadeira ao lado a ouvia melhor que a sua companhia... Era já demasiado terrível ter de ouvir as conversas insípidas das dezenas pessoas que se concentravam naquele espaço, demasiado pequeno para se sentir confortável.
- A sério, não aguento mais isto, vamos simplesmente andar na rua.
E foram.
2 Comments:
...passei por cá e, desta vez, apeteceu-me deixar (um leve!) sinal de o ter feito...;-)
obrigada. sabe sempre bem ver as pegadas de quem por aqui passa...
Enviar um comentário
<< Home