domingo, 19 de setembro de 2004

no café 2 (cont.)

E foi então que a portada pintada de verde se abriu. Ele não reparou imediatamente, mas todos os que ali estavam sentados atenuaram a barulheira insuportável que faziam. Foi afinal este intrigante murmurar que acabou por despertar a sua atenção. Levantou pesadamente o olhar da página albergue das palavras cruzadas e olhou em frente. No enquadramento ideal do seu ângulo de visão ela entrava a direito. As cadeiras outrora cerradas encostadas umas às outras num desalinho, afastavam-se agora apenas pelo aproximar do ruído dos seus sapatos nas tábuas de madeira do chão. Era o som oco dos seus passos que ele seguia, mais que o vulto na sua direcção.

3 Comments:

At domingo, setembro 26, 2004 1:57:00 p.m., Anonymous Anónimo said...

"...e é então que ele se apercebe que após tantas palavras, cruzadas e lágrimas, nada foi dito. No final fica o vazio, a gerar o vazio. Anos a reler o seu Livro, a apreender o cheiro da tinta, a decorar as passagens texturosas das suas folhas. Até a demência da saudade saber a longos regaços, quentes, suspirantes. Do dia em que ele pedira que ser esquecido naquela estação para que alguém o folheasse, resta-lhe a angústia de não ter lido o fim da história. Mas de resto, tantas foram as vezes que se sentiu assim nessa mesma estação por causa desse mesmo livro."

Vi um relance dele, ai nas ruas da baixa, a fugir de Estações, papeis soltos na cartilha, perfeitamente convicto do desencontro.

 
At segunda-feira, setembro 27, 2004 7:46:00 p.m., Blogger T. said...

não fui eu...mas o texto e o comentário parecem excertos da mesma página, da mesma tarde. *

 
At sexta-feira, outubro 15, 2004 10:59:00 p.m., Blogger Inês Vinagre said...

o problem maior é que nunca fica o vazio... Por vezes ficamos a ansiar o dia em que o vazio virá, aliviando este ardor de nao parar de sentir nunca. as palavras por mais que se cruzem ou se molhem nas nossas lágrimas, hão-de estar sempre aqui, as que foram ditas e as que secam na garganta.

 

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