Serra do Bouro
A ida para o meu primeiro dia na escola foi muito atribulada… Devo ter saído de casa ainda muito cedo, talvez ainda de noite, e subi, sem qualquer tipo de esforço, os três degraus que davam acesso à automotora da linha do Oeste, rumo ao Campo. E não se pense que era daqueles nomes que enganam… o Campo era mesmo o campo, com tudo aquilo a que tem direito: galinhas, galos, coelhos, muitas cenouras, couves, e uma imensidão a percorrer de bicicleta, desde a longínqua estação de caminhos-de-ferro, até à escolinha de uma única sala, no meio do pequeno lugar…
Talvez não tivesse dado conta de que estava numa escola, a barriga da minha mãe não mudava o conforto sempre que estava num lugar diferente, mas naquele dia imagino que estivesse mais sorridente, mais alegre, por saber que já não estava sozinha com os seus, poucos, alunos… Agora estava ali também eu. Ao longo dos oito meses (a impaciência sempre foi uma constante na minha vida!) em que me mantive agarrada ao conforto do útero materno, devo ter aprendido, pelo menos, a cantiga da tabuada quase toda, a teimosa irregularidade do verbo ser, as bravas conquistas de D. Afonso Henriques, contudo, no dia 28 de Novembro de 1982 achei que já chegava dessa aventura do conhecimento e resolvi nascer… Dizem as testemunhas daquele tempo, que nasci em Coimbra (que como se verá, nunca esqueci, apesar de não me lembrar!), num domingo (razão da minha preguicite congénita), dia de jogo da Académica no Estádio Municipal (a que devo ter assistido da janela da Maternidade Daniel de Matos, que estava apontada direitinha para o relvado e para as camisolas saltitantes) e de um parto muito demorado, que resultou numa menina muito baixinha, muito leve, que dormia demais…
Os meus primeiros anos foram repletos de aprendizagem na Serra do Bouro, onde estava localizado o Campo. Ali, os mestres da minha educação precoce moravam todos num local a que Skinner chamaria de muito estimulante e reuniram-se numa família que adoptei e em que fui adoptada, enquanto a minha mãe cumpria o horário escolar. A minha ama, a D. Aida, o Jorge, a avó Hortense e o avô Cantigas e a tia Ilda ensinaram-me que as cenouras se chamavam cenouras, que as couves se chamavam couves, que os gatos eram os miaus, que os bolinhos se fazem num fogão preto onde se põe a lenha, que o Avô Cantigas existe mesmo e me leva para apanhar batatas enquanto conta malandrices, que quando se veio do Canadá se trouxe uma pronúncia esquisita e um grande quintal para brincar, que o Benfica é o maior, e o cheiro de café de borras é o maior perfume das memórias de infância. Naquela altura, era a mais pequena da escola, de tal modo que não tinha direito a matrícula, mas aprendi a ler muito depressa, especialmente um livro do Bolinhas, pena que esse fosse mesmo o único livro que conseguia ler, mas com a minha grande pompa e circunstância, lá ia virando as páginas grossas de cartão, olhando para os bonecos e para as linhas e impressionando os ouvintes com tamanha precocidade… (que não sabiam das dezenas de vezes que tinha ouvido contar aquela mesma história!).
0 Comments:
Enviar um comentário
<< Home